Atividade do cuidado e o binômio comunicação e trabalho
Atualizado: 25 de ago.
Flavia Formisano Martins Torres Soares
Trabalho de conclusão da disciplina Atividade de Comunicação e de Trabalho: Implicações Teórico-Metodológicas. Professora Doutora Roseli Aparecida Figaro.
Escola de Comunicações e Artes
Universidade de São Paulo
2025
Resumo
O presente estudo tem o objetivo de relacionar autores usados na bibliografia da disciplina Atividade de Comunicação e de Trabalho: Implicações Teórico-Metodológicas pertinentes e refletir sobre as relações do trabalho do cuidado na vida das mulheres em sociedade. Aqui é analisada uma entrevista com uma munícipe de São Paulo que utiliza as atividades do CEU Tremembé e em sua rotina percebeu a falta de atenção por parte do poder público em relação ao trabalho do cuidado. Ela realizou um abaixo-assinado, no qual solicitou que sejam estabelecidos nos CEUs espaços onde as pessoas possam deixar crianças enquanto realizam suas atividades. Foi realizada uma entrevista com ela tratando a questão do cuidado, e posteriormente o
discurso foi analisado apontando algumas direções para um possível estudo de comunicação sobre o trabalho do cuidado.
A relevância do trabalho de cuidado
“O que você faz? Eu sou dona de casa. Ah, então você não trabalha?’ Quem já presenciou ou participou desse diálogo pode imaginar que se está falando do trabalho numa conversa cotidiana. O que parece um discurso casual revela em si as complexidades existentes tanto nas relações com o trabalho do cuidado, como na maneira como ele é visto e qualificado pela sociedade. E por trás dessas três frases, quanta complexidade de relações humanas, de relações de poder e por assim dizer relações de trabalho.
O trabalho do cuidado está envolvido em nosso dia a dia e é essencial para a subsistência da humanidade, tanto quanto o salário proveniente o trabalho remunerado. Vamos, nesta introdução, rever algumas conceituações sobre o tema e fazer um dimensionamento da questão com alguns dados estatísticos.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua, realizada pelo IBGE[1], em 2022, demonstram que 148,1 milhões de pessoas de 14 anos ou mais realizaram afazeres domésticos no próprio domicílio ou em domicílio de parente, no Brasil. Essas pessoas dedicavam, em média, 17 horas semanais aos afazeres domésticos e/ou cuidado de pessoas, sendo 21,3 horas semanais para as mulheres e 11,7 horas para os homens. Com esse apontamento temos a direção de que mulheres desempenham mais o trabalho de cuidado e estão sobrecarregadas com essa atividade.
Um levantamento da Oxfam (2019)[2], também sobre o trabalho de cuidado, aponta que, em todo o mundo, 42% das mulheres em idade ativa estão fora do mercado de trabalho, frente a 6% dos homens. O que, segundo o levantamento, se deve às responsabilidades não remuneradas pela prestação de cuidado. Outro dado levantado pela Oxfam, foi de que meninas que realizam um grande volume de trabalho de cuidado não remunerado têm taxas de frequência escolar mais baixas que outras meninas. Com esses dados, podemos prosseguir aqui reconhecendo que a maneira como o trabalho de cuidado está estruturada causa desigualdades.
Segundo Helena Hirata (2022), “é urgente a mudança do status precário que o trabalho de cuidado tem na sociedade, em todo mundo”. O trabalho doméstico e de cuidado não remunerado da maneira como é marginalizado repercute nas condições de remuneração e falta de direitos.
Essa questão começou a ser abordada nos anos 70, com o conceito de “divisão sexual do trabalho” de Danièle Kergoat apud (Hirata, 2022). Kergoat (2016) retoma a definição do trabalho como uma “produção do viver em sociedade” e afirma que o “trabalho do cuidado pode ser considerado o paradigma dessa produção do viver”
Vejamos aqui a definição de trabalho de cuidado por Helena Hirata:
“Um trabalho material, técnico e emocional moldado por relações sociais de sexo, de classe, de “raça”/etnia, entre diferentes protagonistas: os(as) provedores(as) e (as) beneficiários(as) do cuidado, assim como todos aqueles e aquelas que dirigem, supervisionam ou prescrevem o trabalho. O cuidado não é apenas uma atitude atenciosa, ele abrange um conjunto de atividades materiais e de relações que consistem em trazer uma resposta concreta às necessidades dos outros. Pode também ser definido como uma relação de serviço, de apoio e de assistência, remunerada ou não, que implica um senso de responsabilidade pela vida e pelo bem-estar do outro” (Hirata 2022)
Nalu Faria (2017) corrobora com Hirata e afirma que o trabalho “doméstico”, também chamado de “reprodutivo” ou de” cuidados”, envolve atividades não só de bens materiais, mas também de afeto e da segurança, mas continua invisível.
“O capitalismo se estruturou procurando separar duas esferas, produção e reprodução para que aqueles que detêm os modos de produção não precisem se preocupar com a reprodução dos seus trabalhadores. Ao jogar a reprodução dos trabalhadores para a família com a ideia de que o homem vai sempre ter uma mulher para cuidar dele como algo naturalizado -, o capitalismo oculta o nexo econômico entre trabalho doméstico e o chamado trabalho produtivo” (Faria, 2017)
A mulher enfrenta dificuldades no mundo do trabalho estando ou não dentro da massa dos trabalhadores remunerados. Sendo trabalhadora remunerada ela é tratada como trabalhadora de segunda categoria, com salários mais baixos, cargos inferiores, desrespeito às necessidades e diferenças de seu corpo feminino (Figaro et al,2024). E na dedicação ao trabalho doméstico fica à margem da sociedade, sem renda e com direitos sociais restritos.
O valor no trabalho doméstico não remunerado
Nosso mergulho no mundo do trabalho começa com o olhar para a diferenciação que a atividade e a capacidade de trabalho trazem para a humanidade. Temos como umas das formulações do materialismo dialético (Marx e Engels, 2007) a compreensão da importância dos modos de reprodução no trabalho para a compreensão da vida e consciência humana. A cada estado de desenvolvimento de formas de produção material de sua existência, correspondem formas específicas de estruturação social, além de valores e formas de apreensão da realidade. Destacar essa característica é mostrar que o ser humano se diferencia dos animais principalmente por sua capacidade de trabalho e como essa capacidade organiza e reproduz os mecanismos de vida em sociedade. Essa capacidade de trabalho faz com que o humano seja um ser histórico, pois por meio do trabalho pode passar para as próximas gerações certas condições de vida que são preservadas ou modificadas pelas gerações seguintes. Essas condições podem ser melhores ou piores. Apesar dessa possibilidade de transformar a realidade, Marx e Engels ressaltam, na obra A ideologia alemã, que as pessoas, muitas vezes, se abstêm desse potencial, pois não se enxergam no trabalho, pois trata-se de trabalho alienado. Não se sente parte desse trabalho e nem tão pouco se usufrui dele.
A dialética materialista nos faz olhar para as diferenças na sociedade e como vivemos essas relações, como somos atravessados pelas contradições da contemporaneidade. Partindo das formulações de Hegel, que introduziu no pensamento filosófico a noção de trabalho, e permitiu reformular a relação entre sujeito e objeto no qual os homens produzem a realidade de forma inconsciente, “eles fazem, mas não sabem”. Mas diferentemente da dialética hegeliana, Marx considerou os meios de produção e seus impactos na dinâmica social. Esse conceito se diferencia de outros conceitos de dialética, e permite observar as relações entre sujeito e objeto e entre a subjetividade e objetividade. Remetendo às contradições, confrontando as características de cada um dos polos, consequentemente, observa-se o que acontece nessa relação de interdependência. Façamos um breve trajeto pela “teoria da mais valia ou do valor” de Karl Marx para compreender melhor as tensões que existem nas relações de e trabalho.
Segundo LEFEBVRE (2009), a teoria do valor de Marx se aplica a objetos que resultam do trabalho social, a produção para o mercado e objetos que podem ser produzidos em série. Essa teoria se aplica quando o caráter social do trabalho se une com seu aspecto individual e qualitativo. Consiste na venda da força de trabalho pela classe dos assalariados para a classe que detém os meios de produção e na observação sobre o valor desse tempo de trabalho, pois no capitalismo o trabalhador recebe apenas por uma parcela de seu tempo total de trabalho. Esse trabalho produz muito mais valor que um salário. Esse valor excedente fica nas mãos do capitalista e é denominado por Marx de taxa de exploração.
Marx considera a mercadoria como o resultado do trabalho humano como uma coisa útil e necessária para a vida, cada mercadoria tem, por sua vez, um valor de uso. Quando alguém produz uma mercadoria que outrem não possui, mas necessita, institui-se o valor de troca e uma relação comercial com valores e usos de mercadorias trocáveis. Até então, temos o escambo instituído, onde existem apenas trocas. Quando entra o dinheiro ele mesmo se torna uma mercadoria universal em relação as outras mercadorias. Essas trocas são estruturadas pela circulação. É importante observar o que faz essa circulação funcionar, estradas, ferrovias, sistemas de distribuição, e para nosso contexto de pesquisa é importante reconhecer o papel da comunicação dentro da circulação de mercadorias, entendendo o caráter indissolúvel do binômio comunicação e trabalho.
Importante ressaltar que enquanto estamos nesse sistema de trocas ainda não existe a mais valia, pois ainda a mercadoria é trocada sem deixar excedentes A relação de valor entre duas mercadorias fornece a mais simples expressão de valor para uma mercadoria. As relações de trabalho se tornam mais complexas com a figura do capitalista, o detentor dos meios de produção, que explora o trabalhador que por sua vez vende seu trabalho para ter sua subsistência. Daí a origem da palavra proletário, que significa aquele que alimenta a prole. Nesse sistema, a forma de troca de mercadoria passa ser por dinheiro e a circulação de mercadorias. Muda-se a dinâmica de valor no sistema uso/valor de troca para a troca mercadoria/dinheiro. Daí surge a exploração do tempo social do trabalho. Nesse momento, junto com a mudança do caráter da mercadoria acontece a mudança das relações de trabalho. O trabalhador que antes tinha uma relação concreto/objetiva com seu trabalho, pois ele era baseado no valor de uso das coisas, passa a ter uma relação abstrata, pois ela vende seu trabalho social que passa ser aferido em forma de tempo e salário. Com essa relação, surge a exploração do trabalho assalariado, onde se gera a mais valia usufruída pelo capitalista. Este paga ao trabalhador um valor menor que ganha com a venda da mercadoria, o salário não é a paga equivalente a todo o tempo de trabalho despendido pelos trabalhadores. Se a exploração do trabalho se materializa na figura do trabalhador. Por conseguinte, o tempo social de trabalho, trabalho abstrato, não se configura somente no trabalho individual, mas na massa de tempo de trabalho que uma mercadoria tem para ser produzida. O lucro e a contratação da mão de obra consistem no cerne do sistema capitalista.
Nessa relação, o saber fazer é apropriado na sua dimensão intelectual e cognitiva, gerando a alienação, pois a trabalhador começa a fazer sem consciência, diz respeito ao tempo tomado pelo capitalista convertendo-se em propriedade privada. Isso influi na subjetividade do trabalhador, porque ele passa a não se reconhecer no trabalho que realiza.
. Dentro dessa dinâmica Marx faz uma divisão: Trabalho Produtivo – aquele que aumenta diretamente o valor do capital (operários de fábricas, trabalhadores do campo, etc) e Trabalho improdutivo – relaciona-se indiretamente com o valor do capital (o trabalho do cuidado é um exemplo).
trabalho do cuidado é um dos exemplos).
Após percorrer e entender a dinâmica do capitalismo e das suas relações de trabalho é possível a partir da diferenciação entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo, apontada por Marx, começar lançar um olhar para a categoria de trabalho do cuidado analisando o que está em jogo nas relações sociais e econômicas envolvidas com essa atividade. Ressaltando que a presente análise se debruça sobre o trabalho de cuidado não remunerado, onde não há pagamento de salário, relações trabalhistas ou patrões capitalistas formalizados. A hipótese aqui seria de que, pelo fato de existir apenas uma relação indireta com a geração de valor para o capital, ele não requer salário, e tão pouco gera mercadoria ou valor, acaba ficando à margem dele. Seria possível a existência de um trabalho do cuidado valorizado, colaborativo, reconhecido socialmente e economicamente dentro do capitalismo?
Apesar do trabalho de cuidado não ser entendido como categoria de trabalho produtivo dentro do sistema capitalista, como demostrou Marx, caberia fazer um exercício de observação mais detalhado sobre o que é e o que significa o trabalho de cuidado para a sociedade. Vamos começar pelos fazeres do cuidado como atividades à luz da teoria da Ergologia. A Ergologia coloca o trabalho como atividade humana, observa as atividades dos trabalhadores, suas interações e criações. Seria interessante observar os saberes, os costumes, como os problemas são solucionados, sob a hipótese de que encontramos muitas características do trabalho de cuidado em comum com a atividade industriosa ou a de serviços. Imagine uma pessoa que desenvolve atividades domésticas cuidando de um idoso, por exemplo. Ela tem um conhecimento, tem tarefas no dia a dia, tem um saber fazer, mas conforme o trabalho decorre surgem problemas e os problemas são solucionados e o modo de fazer modificado pela trabalhadora. Poderíamos mapear esse universo de atividade humana com suas características e confrontar com as atividades remuneradas para ter um auxílio maior na compreensão dessas atividades como trabalho.
O próprio Yvez Schwartz discorre sobre o que poderia ser considerado trabalho e “não trabalho”:
“O vocábulo ‘atividade’ não faz mais, nitidamente, a ‘atividade’, se desfazer. A distinção com os serviços ou as prestações múltiplas de que a vida cotidiana, fora do tempo remunerado, é o caldeirão e o espaço. Mas, justamente, isso não é um indício de que é preciso pensar, ao mesmo tempo, tanto as especificidades não redutíveis entre os espaços e os tipos de exigências, quanto as circulações em todos os sentidos (para retomar um termo utilizado anteriormente) entre os diferentes ‘usos de si’ nas diferentes esferas, tornados possíveis por sua inclusão no conceito geral de atividade? Desse ponto de vista, datar o ‘nascimento’ do trabalho quando da emergência do regime salarial é cortar suas comensurabilidades ... com as outras formas da atividade humana, por exemplo, com as atividades tradicionalmente assumidas pelas mulheres na família ou no grupo social, e cujas raízes remete a outras épocas”. (SCHWARTZ, 2004)
Ele observa que, o surgimento do capitalismo instituiu salário, caracterizando como trabalho somente essa relação normatizada e separada da vida social. Mas, segundo Schwartz, essa especificação levanta uma questão: a dona de casa, o estudante, o desempregado, o biscateiro não ‘trabalham’? “Não seria excessivo separar a tal ponto essas configurações diferenciadas de uso de si?”
Para Schwartz, a atividade não pode ser dispensada e desconectada de qualquer ação humana como por exemplo o trabalho doméstico e um trabalho economicamente caracterizado, pois podem ser compreendidos como uma experiência, uma negociação problemática entre normas antecedentes e as normas de sujeitos singulares, sempre a serem redefinidas aqui e agora. Isso é o que faz considerarmos os dois tipos de trabalho reconhecíveis como atividade humana e de trabalho passível de ser reconhecida e estudada. O tempo assalariado e o tempo privado permitem a circulação de valores e patrimônios:
“Não se pode mitificar o emprego ou o trabalho assalariado. Mas não se podem subestimar os efeitos de devastação social e pessoal da exclusão dessa matriz de acesso à experiência cívica e histórica.” (SCHWARTZ)
Voltando ao movimento feminista que reconhece no trabalho do cuidado a agregação de valor que beneficia diretamente a manutenção do capitalismo, tanto propiciando a criação de novos indivíduos para compor a classe trabalhadora, como cuidando da manutenção da vida da atual massa trabalhadora. Temos uma outra maneira de olhar para o trabalho do cuidado: como “trabalho reprodutivo” (Huws, 2017). Atenta a essas questões apontadas pelas feministas, Huws propõe uma classificação mais detalhada para os tipos de trabalhos existentes na atualidade. Ampliando a oposição “produtivo” e “improdutivo” da teoria do valor de Marx. Huws considera entre eles o trabalho do cuidado não remunerado. Ela aponta dois aspectos a serem analisados: a questão de um trabalho ser produtivo ou não produtivo, e a questão de ser remunerado ou não. Ela afirma que para estudos contemporâneos de trabalho seria insuficiente definir um trabalho apenas como produtivo ou improdutivo, como em Marx, pois existe grande quantidade de trabalho remunerado que produz mais valor para o capital e não contribui necessariamente para a subsistência do trabalhador. O que quer dizer que capital se beneficia do trabalho de cuidado, mas não dispende retorno algum seja em forma salário ou benefício social. O trabalho passa ser considerado como trabalho “reprodutivo”, assim que se faz necessário para a reprodução da força do trabalho.
Huws elenca essas tarefas de trabalho reprodutivo como muitas tarefas realizadas na agricultura para subsistência, seguindo para o trabalho doméstico. Ressalta que tarefas domésticas feitas por empregadas, babás, faxineiras continuam na classificação de Marx como improdutivas, mas aqui também as consideramos reprodutivas. A diferenciação é feita quando entram intermediadores como empresa de limpeza, creche comercial, aí essa trabalhadora é considerada produtiva para o capital.
A questão da subsistência é um fator que merece atenção, cada trabalhador deve ser considerado um indivíduo com sua subsistência a ser conquistada, mesmos os trabalhadores reprodutivos. Segundo Huws, “a discussão de Marx e Engels sobre a divisão “natural” (sic) do trabalho onde o chefe da casa desempenha a atividade de subsistência e as mulheres e crianças ocupam o papel de propriedade do senhor, não serviria mais para o século XXI, onde metade da força de trabalho é formada por mulheres.” Importante ressaltar que as mulheres continuam desempenhando o trabalho reprodutivo simultaneamente ao produtivo. E quem produz exclusivamente o trabalho reprodutivo, como uma dona de casa, tem sua subsistência promovida por alguém ou outras fontes de renda como pensões, aluguéis etc.
Com esse raciocínio e esse olhar para o trabalho do cuidado, considerando-o uma peça na engrenagem do sistema capitalista, levando em conta suas especificidades, Hwus o coloca como pertencente à classe trabalhadora:
“Sem esse conhecimento, também não podemos ver que grupos de trabalhadores têm interesses em comum, como esses interesses comuns podem se tornar mutuamente visíveis, ou como seu trabalho pode ser interligado. Cada uma das diferentes formas de trabalho não remunerado descritas acima tem um impacto sobre o trabalho remunerado, abrindo a potencialidade de tensões e fissuras no seio da classe trabalhadora. (HUWS,2017)
A linguagem do trabalho do cuidado
Depois de discutir as possíveis definições do cuidado como atividade de trabalho, vamos continuar avaliando a pertinência do binômio comunicação e trabalho e sua aplicabilidade para o estudo do cuidado. Olhar para a linguagem e analisar discursos podem nos ajudar nessa empreitada.
Além de produzir para viver, para sua subsistência, a ser humano produz sentido. Para sobreviver o humano passou a viver em grupo e sistematizar suas experiências. Criou divisões de trabalho, tarefas e conhecimento. Quando um humano planeja algo, cria com o desenvolvimento de sua subjetividade. Consegue emitir sinais, fala, desenho, escrita, que consistem na linguagem. Igualmente, a linguagem do trabalho é um instrumento que tem um nome, um sentido. Para executar tarefas é preciso planejamento, conhecimento do fazer, aparelho fonador para transmitir. A linguagem faz parte da atividade do trabalho.
Numa pesquisa de trabalho tem que se ouvir o trabalhador. E a partir do que se ouve é preciso realizar interpretar fazendo a análise do discurso. Para analisar o discurso é preciso apreender o que uma trabalhadora fala. É preciso estar atenta ao significado do que se fala. Considerando que, segundo Vygostsky, o significado das palavras é ao mesmo tempo pensamento e linguagem, essas duas coisas são simultaneamente o pensamento verbal. “As formas mais elevadas do intercâmbio humano só são possíveis porque o pensamento do homem, reflete a atualidade conceitualizada”. Ele propõe um sistema para análise de discurso que considera a união do afetivo e do intelectual. Temos que compreender que quando uma entrevistada fala, ela se refere a uma realidade que é atravessada pela construção de significados que são transmutados pela afetividade.
Segundo Leontiev(2004), a formação da psique é social, isso também acontece com a linguagem. A linguagem se estrutura com a interação do indivíduo com o ambiente onde vive. O que diferencia o ser humano dos outros animais é exatamente a organização social que o trabalho trouxe. Quando do trabalho deixa de ser uma atividade individual, como um pássaro solitário ao caçar sua presa, e é dividida em funções desempenhadas de modo coletivo, criam-se instrumentos para efetuar o trabalho, cria-se a consciência sobre esse processo. Para que se comunique as complexidades deste processo, o humano desenvolve a linguagem, que é a expressão do pensamento e da consciência que a atividade de trabalho estimula no ser humano. Por sua vez, a consciência individual só existe em consequência da consciência coletiva. É um resultado das significações e conceitos linguísticos elaborados socialmente. Ao fazer a análise do discurso de um entrevistado numa pesquisa é preciso estar atenta aos reflexos coletivos que constam em certas elaborações que são verbalizadas.
“A consciência do homem é a forma histórica concreta do seu psiquismo, ela adquire particularidades diversas segundo as condições sociais da vida dos homens e transforma-se na sequência do desenvolvimento das suas relações econômicas. “(LEONTIEV, 2004)
Partindo da ideia de que a linguagem é forjada nas relações sociais de organização de trabalho, podemos afirmar que a língua, expressão da linguagem, está em constante evolução, e se realiza na interação verbal entre sujeitos. Segundo Volóchinov (2017), a língua não pode ser compreendida isoladamente sem se considerar os valores vigentes. A enunciação só se torna efetiva entre falantes. Isso nos leva a refletir sobre a importância das palavras na língua e o perigo do uso de sinônimos para designar um mesmo objeto. Em muitos casos a mudança da palavra(signo) pode ter a intenção da manipulação sobre o que realmente representa a realidade descrita por uma ou outra palavra.
O texto de Baccega e Citelli (1989) sobre a maneira que os jornais abordaram a ação dos sem-terra na cidade de São Paulo, em 1987, discute essa manipulação que se pode fazer com um jogo de palavras. As palavras “invasão” e “ocupação” dão, cada uma delas, um sentido diferente para a interpretação do caráter da ação dos sem-terra. Isso exemplifica o uso dos signos para transmitir uma ideologia. Segundo Volóchinov uma ideologia pode ser transmitida pela linguagem, um indivíduo vai saber discernir qual é o tipo de ideologia que está contida numa mensagem e se ela está a seu favor ou quer apenas dominar, conforme a seu domínio sobre a linguagem. Com isso, pode se concluir que o domínio da linguagem possibilita ao indivíduo enxergar pelo discursos.
Segundo Volóchinov (2017) a ideologia do cotidiano começa em infraestruturas básicas e fica mais complexa até chegar aos meios de comunicação, quando atinge o nível superior da ideologia do cotidiano. O movimento da ideologia informal para a ideologia do cotidiano é essencial. A ideologia formal só ganha legitimidade se circula na estrutura da ideologia do cotidiano. Dentro desse processo, a linguagem registra através da palavra todos os mementos de mudança. A linguagem está num ponto de intercâmbio entre a infraestrutura e a superestrutura.
Quando a ideologia passa a circular no cotidiano ela pode ter duas facetas: a da ideologia pura, a que representa os interesses da sociedade e da ideologia invertida, que representa os interesses da classe dominante. Ao analisar um discurso é preciso estar atenta para esse movimento e tentar mapear de onde vem algumas opiniões, convicções, valores, observar esse movimento de interesse de quando algo deixa de ser social e passa a ser unilateral.
Comunicação e trabalho
A proposta do binômio comunicação e trabalho é ser uma perspectiva crítica que questiona a limitação do fenômeno comunicacional ao estudo das mídias. E refuta a linearidade comunicacional entre emissor e receptor. Segundo (FIGARO, 2018) essa abordagem permite entender por meio do estudo do fenômeno comunicacional a materialidade das transformações sociais:
“É atribuição das ciências da comunicação estudar o fenômeno comunicacional para identificar os conflitos, o movimento das interações sociais, as relações de comunicação, a cultura e as linguagens que nesse processo afetam as pessoas e toda a sociedade. Ela é uma atividade ontológica que constitui o Ser humano no seu percurso histórico. A observação das relações de comunicação no trabalho, na dimensão de fenômeno comunicacional, coloca para nós pesquisadores o desafio de investigar a densidade do mundo do trabalho que se constitui como território físico e simbólico no qual uma multiplicidade de relações, saberes, ações, poderes e disputas se materializam.” (FIGARO, 2018)
Tendo em vista essa concepção de estudo da comunicação, partimos para considerar a comunicação como uma parte integrante dos processos de trabalho. É com ele que o conhecimento passa de um para o outro, que são feitos aprimoramentos nas técnicas de trabalho, mas principalmente é na comunicação que se expressa o que acontece nas relações de trabalho. O que se fala sobre o trabalho, o que a sociedade concebe sobre o que é o trabalho e como são relações de trabalho, todos esses registros circulam pela comunicação.
Segundo Willians, os meios de comunicação são eles mesmos os meios de produção. “Os meios de comunicação são sempre social e materialmente produzidos e reproduzidos, pois eles são intrínsecos a todas as formas de trabalho humano e de organização social, sendo indispensáveis para as forças produtivas em si e para as relações sociais do trabalho.” (WILLIANS, 2011)
No contexto do trabalho, o que é comunicado, o que é falado acaba se remetendo a uma certa universalidade, pois na esfera laboral circulam os sentidos produzidos pela coletividade. Sendo assim, segundo Figaro, et al 2024(pg 9):
...” esse percurso teórico de compreensão, que vai da relação linguagem-pensamento e discurso-história à produção de sentidos como resultado das relações sociais e suas implicações ideológicas, aborda-se o mundo do trabalho como espaço-tempo privilegiado para se compreender as disputas discursivas que envolvem a sociedade. Um mundo do trabalho que só pode ser observado e analisado quando se consideram as relações de comunicação, reveladoras dos sentidos dos discursos.”
Aqui vamos considerar esse mundo do trabalho do cuidado não remunerado acontecendo nas casas de pessoas como a entrevistada. Considerando que também existem similaridades na atividade de cuidado. Apesar de elas não estarem conectadas por uma empresa, estão conectadas pela lógica do trabalho e pela lógica da sociedade.
A questão do cuidado, uma sondagem de caso no CEU Tremembé
“A ideologias hegemônicas estão vivas nas palavras e comportamentos dos trabalhadores no cotidiano.” (Figaro et al,2024)
Como sondagem de campo, entrevistei uma cuidadora, dona de casa, de 42 anos, com dois filhos, moradora no bairro do Tremembé, na cidade de São Paulo. Ela promoveu um abaixo-assinado, em dezembro de 2024, solicitando um serviço e assistência ao cuidado no CEU Tremembé. O abaixo assinado foi promovido por meio da plataforma change.org e foi divulgado em grupos de whatsapp.
A solicitação era para que o CEU institucionalizasse um espaço onde as pessoas que fazem atividade no local, e estivessem acompanhadas por crianças, pudessem deixar essas crianças durante suas atividades.
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Texto do abaixo assinado:

Nós, mães e tutores de crianças menores que frequentamos as atividades promovidas pelo Céu Tremembé, vimos por meio desta expressar nossa preocupação e solicitar a revisão da política que impede a presença de nossos filhos menores durante as atividades realizadas neste espaço. Reconhecemos o valor que o Céu Tremembé tem em nossa comunidade, como um local de aprendizado, convivência e desenvolvimento. Contudo, para muitas de nós, a presença dos filhos é indispensável para que possamos continuar participando das atividades. As crianças, além de fazerem parte integral de nossas vidas, também são beneficiárias indiretas do nosso envolvimento nessas iniciativas. A convivência em um ambiente comunitário proporciona a elas um espaço de aprendizado por meio do exemplo, além de reforçar os laços familiares e sociais. Sabemos que garantir um ambiente seguro e organizado é fundamental. Por isso, sugerimos a adoção de alternativas que viabilizem a nossa participação nas atividades sem excluir nossos filhos, tais como:
Disponibilização de um espaço adequado para as crianças com supervisão durante as atividades;
Realização de atividades integradas que permitam a participação conjunta de mães, tutores e filhos;
Criação de horários flexíveis para atender à realidade das famílias.
Acreditamos que, com diálogo e colaboração, é possível encontrar soluções que valorizem a inclusão e a integração familiar, princípios que certamente fortalecem o propósito social do Céu Tremembé. Estamos à disposição para contribuir na construção de alternativas que atendam às necessidades de todos os envolvidos. Reforçamos nossa disposição em dialogar e trabalhar juntos para garantir que este espaço continue sendo acessível e acolhedor para toda a comunidade.
O CEU, Centro Educacional Unificado, é um equipamento educacional criado em 2004. “Os CEUs foram construídos com o objetivo de promover uma educação à população de maneira integral, democrática, emancipatória, humanizadora e com qualidade social. Juntando não somente educação, mas também, a cultura, o esporte, lazer e recreação, possibilitando o desenvolvimento do ser humano como um todo, como pessoa de direitos e deveres e dono de sua história.”[3]
O CEU Tremembé, foi inaugurado no ano de 2020, e fica no bairro com o mesmo nome na Zona Norte da cidade de São Paulo. Juntamente com parte das unidades da capital tem setor de esportes e cultura administradas pela iniciativa privada, por meio de uma parceria púbico privada, no caso o Instituto Bacarelli.

Análise da entrevista da cuidadora
Ao me debruçar sobre a entrevista da cuidadora pude notar em seu que em seu discurso perpassam algumas questões que poderiam ser levadas a frente em uma continuação desse estudo:
1 – O Estado e o cuidado
... foi o meu maior embate com eles. Na visão deles, o que eu teria que fazer: entrar na sala e deixar, então, já que eu não posso deixar uma criança sozinha na biblioteca, então deixa ele para o lado de fora, me olhando...
Quando a cuidadora adota a palavra “embate” para descrever a relação que ela teve com a administração de um equipamento do Estado quando solicitava auxílio para poder fazer uma atividade em um centro municipal, e na qual ela apresenta dificuldades para fazer devido a sua condição de cuidadora, abrimos uma janela para enxergar como são as relações da sociedade, do poder público em relação ao trabalho do cuidado. Dentro da dinâmica neoliberalista, na qual o individualismo prevalece, ações do Estado ou da própria sociedade para apoio ao trabalho do cuidado ainda são inócuas. Ainda há a necessidade de “embate” para que o trabalho do cuidado seja acolhido.
2 – A percepção da entrevistada em relação a dimensão social e econômica do trabalho do cuidado.
“Então eu sou muito grata por conseguir, ter saúde e conseguir fazer tudo isso por eles. Porque eu sei que lá na frente isso vai ser um diferencial na vida dele. ...Só que lá na frente, eu sei que isso vai ter um retorno. Não falo só um retorno financeiro. Sabe, eu falo um retorno para a vida deles mesmo”
O discurso da cuidadora sobre a contribuição de seu trabalho do cuidado fica na esfera privada, demonstrando falta de reconhecimento à sua contribuição para sociedade. Cabe aqui questionar: o trabalho do cuidado é um bem público ou privado? Como já vimos, o trabalho do cuidado pode ser considerado um trabalho reprodutivo exatamente porque além de atender às necessidades de quem é cuidado, de proporcionar um futuro mais próspero, como diz nossa entrevistada, ele proporciona benefícios para a sociedade e para a engrenagem econômica. Podemos também, destacar a hipótese de alienação da trabalhadora do cuidado no sentido de que não se tem noção da importância de seu trabalho não só para os filhos, esfera privada, mas também para a sociedade, esfera pública
3 – Reivindicar direitos de pelo trabalho do cuidado ainda é uma luta solitária
Quem desenvolve o trabalho de cuidado o faz solitariamente. O trabalho isolado, cada uma na sua residência, pode ser um fator que dificulta a mobilização, organização comunitária em prol da causa. A falta de aderência no abaixo assinado demostra isso. É interessante notar que a entrevistada usa a palavra “medo”, quando fala sobre as pessoas também reivindicarem um serviço de apoio às cuidadoras, o que demostra como é a relação de subordinação, a passividade e a falta de clareza em relação a direitos “... eu acho que no whatsapp elas interagem pouco. Algumas pessoas têm mais idade. Pessoalmente, eu sinto que eles sentem meio que um, não sei, se elas têm medo de falar sobre...”
Além disso há a questão de que um meio de comunicação como whatsapp nos dá a falsa impressão de que estamos conectados e unidos, mas na verdade estamos apartados. “A solidariedade é fundamental no desempenho da atividade. Ao mesmo tempo, é combatida com veemência pela lógica neoliberal. (Figaro et al, 2024).
4 - Cuidar por afeto, preparar cidadãos, sem ser valorizada pela sociedade
A contradição do trabalho de cuidado é que há um sentido em preparar novas gerações, em criar filhos, cuidar de idosos. É um sentido de trabalho humano, como um trabalhador se identifica socialmente por seu trabalho remunerado, a cuidadora também se identifica com seu trabalho sua função social e afetiva. Apesar de todas as tensões que possam existir, o trabalho de cuidado também gera sentidos. O desafio é entender como fazer essa atividade ser reconhecida. A dificuldade da entrevistada em ter um apoio para o próprio cuidado, o que poderíamos chamar do “cuidado com o cuidado”, aponta para essa questão, o individualismo ainda é um entrave para questões como essa.
Eu gosto (de cuidar), mas eu acho que é muito desvalorizado. Você abdica da sua vida, porque querendo ou não você abdica da sua vida em prol deles. Então, 90% das minhas coisas são referentes a eles. Quando eu caio nessa parte de tudo que aconteceu comigo no CEU neste mês, isso me bate muito forte, porque assim era um momento em que eles poderiam fazer atividade deles(filhos). E eu poderia fazer a minha atividade...
Considerações finais
Com essa questão aberta, apresenta-se o desafio para estudar o trabalho de cuidado com a contribuição do binômio trabalho-comunicação. É importante investigar qual é o papel da comunicação na manutenção do status quo da estrutura social do trabalho do cuidado. Como ele é visto? Como se formam os consensos? Como circulam esses consensos? Como a comunicação contribui para a formulação dos conceitos que circulam hoje? Como, por exemplo, a prevalência do individualismo, e o fato do trabalho do cuidado ser tratado como uma questão privada, apenas no foro das famílias. Entender como o trabalho de cuidado se estabelece na sociedade, como são as relações no cotidiano e como a comunicação faz circular esses sentidos do trabalho do cuidado é essencial para que a atividade de trabalho seja valorizada e reconhecida como o motor de uma sociedade.
Referências bibliográficas
CITELLI, A.O. e BACCEGA, M.A. Retórica da manipulação: os sem-terra nos jornais. In: Comunicações e Artes. São Pulo, ECA – USP, no 20, abr/1989.
FARIA, N., Transformar o Mundo para Mudar a Vida das Mulheres, entrevista à MASSUELA, A, Revista Cult, ed. 224, pg. 32-35. Editora Bregantini, 2017.
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Anexo
Entrevista com cuidadora Tatiane Roque de Oliveira Araújo,42 anos mãe de dois filhos, autora abaixo assinado para o CEU Tremembé.
Pesquisadora - qual sua profissão?
Cuidadora – sou artesã.
Pesquisadora - o que você faz de artesanato?
Cuidadora - Eu trabalho com laços infantis e produtos de resina.
Pesquisadora- E hoje desempenha o trabalho do cuidado?
Cuidadora - Sim, é 90% do meu tempo.
Pesquisadora Hoje você cuida de quem?
Cuidadora - Cuido da Júlia, do Gabriel, né? Júlia já tem 9, Gabriel tem 6.
Pesquisadora - E nesse grupo, falando especificamente do abaixo assinado, como que vocês se mobilizaram para fazer esse abaixo assinado?
Cuidadora - Então, na verdade, Flavia o que que aconteceu, eu frequento o CEU há três anos. E há 3 anos eu levo as crianças comigo, a Ana Julia e o Gabriel ficavam comigo. Ficavam comigo na mesma sala em que eu fazia atividade. Só que depois a Ana Julia começou a fazer outras atividades também. O Gabriel faz outras atividades, só que são horários diferentes. A Ana Júlia não fica comigo na sala porque as atividades delas são no mesmo dia e mesmo horário das minhas. E o Gabriel fica comigo porque a atividade dele é de segunda-feira e sábado, segunda-feira ele faz futebol, depois do meu pilates e sábado ele faz natação.
Pesquisadora - Quando ele fica com você? As crianças tinham um lugar para que alguém tomasse conta?
Cuidadora - Não, ele nunca teve. No CEU não tem esse lugar, entendeu?
Pesquisadora - Eu pensei que vocês tinham perdido isso.
Cuidadora - Não, o CEU não tem esse espaço, entendeu? Então, assim, o CEU é um espaço que tem várias salas com atividades, mas não existe um espaço específico. Onde você vai fazer a sua atividade e a criança vai ficar no lugar sendo assistida por alguém? Na verdade, o meu problema começou assim: eu resolvia abrir esse abaixo-assinado porque eu fui conversar com a coordenadora e com o diretor do CEU Tremembé. Eles disseram que eu deixasse ele na biblioteca enquanto eu fazia minhas aulas. Só que você não pode largar uma criança de 5 anos sozinha. Então foi aí onde foi o meu maior embate com eles. Na visão deles, o que eu teria que fazer: entrar na sala e deixar, então, já que eu não posso deixar uma criança sozinha na biblioteca, então deixa ele para o lado de fora, me olhando, fazer atividade, entendeu? E não tem condições, não tem condição nenhuma. Então o abaixo assinado surgiu por conta disso, por conta do espaço do CEU não ter um espaço para agregar essas crianças. Enquanto a gente faz atividade e não tem uma pessoa que vai ficar olhando ele para mim, porque a gente sabe que criança é questão de segundos.
Pesquisadora - Então, a partir da sua necessidade, você se mobilizou. Têm pessoas na sua turma ou dentro do CEU com necessidades parecidas?
Cuidadora – Então, tem bastante pessoas. Só que a gente bate no outro ponto. Eu fui conversar com a coordenadora e com o diretor. Só que as outras mães não foram. Então eu falei diretamente, porque esse CEU do Tremembé, os CEUs de São Paulo, eles são diretos da prefeitura. Esse CEU especificamente e alguns outros CEUs da zona norte, eles são da prefeitura, só que eles são terceirizados. Então quem cuida é o Baccarelli., né? Então eu cheguei a conversar com o diretor do Baccarelli também, o Maurício. O diretor da ouvidoria, o Maurício, né? Ele falou que ia tentar resolver, só que há uns 2 dias que ele me mandou um e-mail falando que não tinha de o que fazer e que realmente as crianças não iam poder mais ficar na sala. É então assim, não foi resolvido nada.
Pesquisadora - E aí você está batalhando para que tenha um espaço que seja institucionalizado alguma coisa assim no CEU.
Cuidadora – Sim.
Pesquisadora – E as pessoas com quem você faz atividades junto no CEU como que você se comunica com elas normalmente?
Cuidadora - Então a gente tem um grupo de WhatsApp, além das aulas. A gente se comunica também pelos grupos de WhatsApp.
Pesquisadora -Você usou esse grupo de WhatsApp também para divulgar o abaixo assinado?
Cuidadora - Sim, sim.
Pesquisadora - E você acha que as pessoas interagem pelo WhatsApp? É diferente da interação pessoal, ao vivo?
Cuidadora - Então eu acho que no whatsapp elas interagem pouco. Algumas pessoas temem mais idade. Pessoalmente, eu sinto que eles sentem meio que um, não sei, se elas têm medo de falar sobre. Tem uma moça, eu posso falar de uma moça em específico, que ela faz atividades comigo, ela tem uma filha da mesma idade do Gabriel, só que para ela não tem problema para deixar a filha dela sentada no banco do lado de fora enquanto ela faz atividade. Só que para mim tem problema, então eu não vou fazer isso, então eu prefiro não estar na atividade, que foi exatamente o que eu falei para o diretor. Eu prefiro não estar na atividade. Em contrapartida, eu tive que largar o meu filho, porque quando você me fala, deixa ele do lado de fora, eu me sinto largando dele. Eu falei exatamente isso para o diretor, onde não cabe o meu filho, não me cabe. Se o meu filho não tem essa abertura no espaço que era para ser de acolhimento, esse espaço também não serve para mim.
Pesquisadora - Tem que acolher todos, não é?
Cuidadora - É, tem. Para que as crianças? Só que em contrapartida, a gente tem o que? As crianças gostam muito da atividade de lá. Então eu não vou tirar as crianças de lá não. Vou sair das atividades. Eu vou deixar de fazer porque eu não vou deixar o meu filho dessa forma, entendeu? Mas eles vão continuar fazendo as atividades deles.
Pesquisadora – Hoje, quais serviços de cuidado que você faz em casa?
Cuidadora – Eu faço tudo, porque o meu marido, ele trabalha fora, sai 6 horas da manhã, ele chega 9 horas da noite, eu fico com as crianças o dia inteiro. Principalmente agora, na época de férias.
Pesquisadora – E quantas horas por dia e quantos dias por semana você se dedica a cuidar de outros?
Cuidadora - segunda a segunda
Pesquisadora - jornada, 7 por 7, não é?
Cuidadora - Jornada 7 por 7, porque você cuida das crianças, eu fico com eles na parte da manhã, aí eles vão para escola na parte da tarde, aí à noite eles chegam, tem lição para fazer, tem todos os cuidados para fazer. Isso durante uma semana, segunda a sexta, aí sábado e domingo é o tempo que eu estou integral com eles.
Pesquisadora - Outras pessoas ajudam em casa, além de você.
Cuidadora - Não é só que eu. Eu e Deus.
Pesquisadora - Você exerce essa atividade remunerada? É artesanato, não é? Quantas horas essa atividade te toma por dia?
Cuidadora - Eu trabalho enquanto crianças estão na escola. Eu das 1 às 5:30, porque aí depois eu já tenho que fazer janta, cuidar assim, né? Eles chegam 6 horas na escola.
Pesquisadora - O que é o trabalho de cuidado para você? Qual que é a importância desse trabalho?
Cuidadora - Olha, eu gosto. Eu prefiro estar com eles do que está do que se eu tivesse tipo num CLT, se eu tivesse que passar aí para outra pessoa, fazer que eu saberia que eu ia perder muito. Ia perder o crescimento deles. Eu gosto, mas eu acho que ele é muito desvalorizado. Você abdica da sua vida, porque querendo ou não você abdica da sua vida e prol deles. Então, 90% das minhas coisas são referentes a eles. Quando eu caio nessa parte de tudo que aconteceu comigo no CEU neste mês, isso me bate muito forte, porque assim era um momento em que eles poderiam fazer atividade deles(filhos). E eu poderia fazer a minha atividade? Então eles me tiram a possibilidade de estar no mesmo ambiente que o Gabriel enquanto eu faço a minhas atividades, então ali eu já perdi, que era o cuidado para mim ele não vai, não vai ter mais. Eu não tenho como fazer a atividade dessa forma.
Pesquisadora - As pessoas que você conhece, é como que elas costumam se referir quando falam do trabalho doo trabalho doméstico que você desempenha?
Cuidadora - O pessoal me chama meio de doida. Eu vivo em prol das crianças. É segunda, terça e quinta são dias que eu não marco nada. Eu tenho parte quarta e sexta, são os únicos dias que eu posso alguma coisa. E saio daqui 8 horas da manhã, levo eles para fazer atividade, arrumo para escola, meio-dia a perua passa. Então do meio-dia a cinco é o horário que eu tenho para mim. As pessoas não têm essa disposição de poder fazer tudo isso, que nem aqui na minha rua mesmo, que a gente tem a possibilidade de poder levar as crianças, fazer as mesmas atividades, só que é que nem ela fala. “Eu não tenho essa disposição, eu não. Tenho essa vontade”. Então eu sou muito grata por conseguir, ter saúde e conseguir fazer tudo isso por eles. Porque eu sei que lá na frente isso vai ser um diferencial na vida dele. Praticar esporte, que é uma coisa muito boa. Então sei que hoje está pesado porque só um só sou eu. Então só sou eu para fazer tudo para eles. Só que lá na frente, eu sei que isso vai ter um retorno. Não falo só um retorno financeiro. Sabe, eu falo um retorno para a vida deles mesmo.
Pesquisadora - Você sente que você recebe alguma ajuda de outras pessoas e do poder público para desempenhar o trabalho do cuidado?
Cuidadora -É. Não, não.
Pesquisadora - Como que o poder público pode te ajudar nisso?
Cuidadora - Eu acho que eles poderiam ajudar de várias maneiras. Acho que a gente poderia. Ter sim uma remuneração. Não que seja obrigação, né? Porque as crianças, querendo ou não, são nossas, né? Mas eu acho que poderia ter alguma coisa nesse meio que viesse do governo, ou até alguma ajuda que a que eles pudessem fazer pela gente, pelos pais pelo, por quem está com a criança assim.
Pesquisadora - E qual que você acha que é o papel do CEU para o apoio para quem desenvolve o cuidado?
Cuidadora – O papel do CEU seria que realmente do que eu já falei, seria o papel de acolhimento. Acolher aquela família. Porque muitas famílias que vão ali não são como a minha, o meu caso específico com só uma ou 2 pessoas. Tem avós que levam os netos. São pessoas que já estão, mais idade e necessitam da atividade física e vão ter que parar. Tinha uma senhora que fazia lá. Ela levava, o neto dela e o menino tinha autismo. Então como você vira para uma criança que tem autismo, grau 3 que ela é totalmente acelerada, e fala: elas não vão poder entrar na sala, a criança não fica sozinha no banco. Então, o que que acontece? As pessoas acabam não indo mais por conta disso.
Pesquisadora - Qual que é o impacto que o trabalho de cuidado que você exerce hoje tem hoje para o futuro de quem você cuida?
Cuidadora - É muito bom porque eu acho que hoje as crianças não entendem muito. A não ser a Ana Julia que já vai fazer 10 anos. Mas eu acho que no futuro isso vai ser muito importante para eles lembrarem de tudo o que eles viveram comigo. De tudo que a gente viveu junto. É de tudo que eu proporcionei para eles e poder estar com eles e não terceirizar esse trabalho.
Pesquisadora - E para a sociedade? Você já pensou assim que além de um benefício direto para eles, quando você faz um trabalho de cuidado, você está preparando pessoas para o mundo.
Cuidadora -Sim, o eu estou fazendo por eles hoje, é aquilo que eu te falei, eu estou fazendo por eles hoje, mas no futuro eles vão agradecer muito, e eu tenho certeza de que vão ser pessoas melhores. Lembrando de tudo o que aconteceu, de tudo o que foi feito para eles na infância.
[1] Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua -IBGE – 2022 Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37621-em-2022-mulheres-dedicaram-9-6-horas-por-semana-a-mais-do-que-os-homens-aos-afazeres-domesticos-ou-ao-cuidado-de-pessoas - Acessados em 15/05/2025.
[2] Oxfam – Tempo de Cuidar – O trabalho não remunerado e mal pago e a crise Global de Desigualdade, Documento informativo. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/tempo-de-cuidar-o-trabalho-de-cuidado-nao-remunerado-e-mal-pago-e-a-crise-global-da-desigualdade/ Acessado em: 15/01/2025.
[3] Disponível em: https://ceu.sme.prefeitura.sp.gov.br Consultado em 16/01/2025.

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