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Profissionais liberais nas redes sociais, dinâmicas e complexidades observadas a partir de uma psicóloga influencer

há 6 dias
29 min de leitura

 

 

 

Trabalho de conclusão da disciplina Influenciadores digitais: perspectivas teóricas, práticas discursivas e profissionais (CCA5974) - Escola de Comunicações e Artes – Universidade de São Paulo

 

Profa. Dra. Issaaf Karhawi

 

Aluna especial: Flavia Formisano Martins Torres Soares

 

O sujeito pós-moderno não possui uma identidade fixa ou permanente, mas sim múltipla e dinâmica, constantemente construída e reconstruída conforme as relações que se estabelecem com os sistemas culturais existentes.” Stuart Hall

 

Resumo

 Profissionais liberais se inserem cada vez mais nas redes sociais com o intuito de se promover. Essa comunicação é atravessada por processos complexos que englobam desde as dinâmicas dos influenciadores digitais e até a plataformização.  O objetivo aqui é identificar e analisar características, que foram apresentadas durante a disciplina “Influenciadores digitais: perspectivas teóricas, práticas discursivas e profissionais”, que perpassam a atividade de influencers digitais que são incorporadas à atividade de profissionais liberais nas redes sociais. Essa atividade de comunicação feita por pessoas que não são os influencers tradicionais, não levam a influência em si como uma profissão, é inicialmente vislumbrada como meio de promoção de trabalho. Buscaremos, aqui, entender como os profissionais liberais assumem o éthos de influenciadores digitais e replicam seus formatos e estéticas para alcançar seus objetivos. Para entender o que baseou esse movimento, estudaremos a questão da cultura da participação e cultura da convergência. Para entender o que levou influencers e depois profissionais liberais às redes discutiremos os regimes de visibilidade, passando também pelas dinâmicas que estão ligadas a essa visibilidade como a autenticidade, representação e autorrepresentação, passando pela dinâmica da plataformização. A proposta aqui é, para compreender como esses conceitos ocorrem na prática, fazer uma observação e discussão a partir de posts de uma profissional liberal, psicóloga, que trabalha com a temática da violência contra a mulher, tem um perfil ativo no Instagram e se posiciona como influencer. Ela aborda questões da violência contra mulher com as especificidades de sua área, dando informações, orientações de como prevenir, como reconhecer precocemente e o que fazer numa situação de violência.

 

 

 

Todos querem interagir - a cultura da participação como ponto inicial


Para compreender os mecanismos comunicacionais e sociais que propiciaram a atuação dos profissionais liberais nas redes sociais, nos moldes dos influenciadores digitais, se faz necessário percorrer alguns conceitos que nos possibilitarão analisar e compreender os movimentos que ao se convergirem proporcionaram o ambiente para que essa modalidade de comunicação se torna-se comum entre esses profissionais.  Entendemos aqui o termo profissionais liberais como a representação de pessoas que atuam como médicos, psicólogos, nutricionistas, advogados etc.

A primeira questão que se observa é a cultura da participação (Jenkins; Green; Ford, 2014), momento da contemporaneidade em que a autoria do ato comunicacional deixou de estar em poucas mãos. Antes da chegada da internet, dos blogs, redes sociais, os meios de comunicação unilaterais imperavam. Um programa de TV ou rádio, por exemplo, transmitia sua programação e sua audiência poderia interagir no máximo conversando com pessoas próximas ou enviando uma correspondência via correio.  A cultura da participação se desenvolveu nos meios digitais, na qual inicialmente acreditava-se que o poder estaria diluído em muitos atores.  Nesse fenômeno, os papéis de emissor e receptor, antigamente tão delineados, passam a formar uma espécie de híbrido, assim todos podem interagir, participar, responder. Como explica Karhawi[1], “Toda a vez que logamos em nosso perfil em determinada rede social e escolhemos curtir a página..., compartilhar uma notícia..., clicar em um post patrocinado; em todas essas atividades corriqueiras, estamos participando e redefinindo os fluxos midiáticos.”  Todas essas ações, a princípio, sem motivações monetárias, têm algum tipo de motivação, segundo Shirky(2011), "as motivações sociais reforçam os pessoais; nossas novas redes de comunicação encorajam a participação em comunidades e o compartilhamento” (Shirky, 2011, p. 74) O autor afirma que isso só é possível graças ao excedente cognitivo no qual o tempo livre passa a ser um bem comum usado para grandes projetos criados coletivamente. Para Karhawi, nesse contexto, a relação com a mídia tradicional e o contato com a informação mudam.  Abre-se o polo de produção, antes exclusivo das mídias, e passa-se a ter contato direto com os acontecimentos, sem mediação dos veículos de mídia. A internet se torna um espaço no qual se pode caminhar com as próprias pernas, com os próprios cliques. E então, nesse momento surgem os blogs e consequentemente começa acontecer a formação da personalidade dos influenciadores digitais, representantes dessa cultura da participação.

Segundo Camargo, Estevanim e Silveira[2]  jornalistas e artistas eram formadores de opinião, mas na atualidade pessoas comuns ajudam a influenciar milhares, conquistaram uma grande quantidade de seguidores e essa popularidade é vista como uma estratégia de marketing capaz de alavancar o sucesso de uma marca na web.

Mas não somente a maneira como os atores interagem mudou o cenário na comunicação digital.  O próprio caráter da cultura da participação pede novos veículos e novos fluxos de comunicação.  As mídias também sofreram mudanças para se adaptar a esse modelo de participação, o que se chama de convergência das mídias. De acordo com Jenkins (2009), o acontecimento da convergência midiática foi definido pelo fluxo de conteúdos em múltiplas plataformas e pelo trabalho cada vez mais colaborativo entre diversos mercados midiáticos. O que significa que a ação de múltiplos participantes pede múltiplas mídias para darem vasão a essa nova dinâmica de comunicação.

“...a cultura da convergência abarca a questão tecnológica do fluxo de conteúdos ocorrendo através de diferentes e múltiplos suportes midiáticos, e vai além disso, dizendo respeito às mudanças no comportamento do público, que agora se apropria das redes digitais para buscar diferentes experiências de entretenimento e de informação. Os interagentes, em determinados momentos, querem muito mais do que apenas sentar-se em frente à televisão e assistir a um programa: eles querem participar, opinar, interagir e conversar com a emissora de TV.” (Camargo, Estevanim e Silveira, 2017)

Nessa nova dinâmica observa-se, conforme Karhawi[3], que nem todos produzem ativamente os conteúdos, mas a reprodução tornou-se constante, “grande parte dessa audiência consome produtos da mídia tradicional e os compartilha”. A autora explica que, conforme essa dinâmica, no feed das redes sociais, é notícia aquilo que amigos compartilham e não o que uma empresa midiática coloca em pauta.  Conferindo um novo caráter à credibilidade. Afinal como não acreditar numa notícia enviada por um conhecido, onde já existe uma relação de confiança? 

A informacional com os parentes e conhecidos logo deu lugar aos “influenciadores desconhecidos”. Karhawi nos demonstra, pela trajetória das blogueiras de moda, que “a era de information overload, a sobrecarga de informação, foi um trampolim para o sucesso de iniciativas como as das blogueiras de moda.”  Inclui-se aqui sujeitos de outras áreas que, com nesse mar de informação, falam com um tom intimista gerando, desse modo, confiança e aspiração. 

 A mobilidade, os anseios de interação social, a participação, o pertencimento e o reconhecimento são elementos integrantes deste fenômeno. Podemos, então, compreender que a convergência de mídias foi moldada pelas necessidades prementes da cultura da participação. E a convergência, consequentemente, alterou a relação entre as tecnologias, mercados e públicos, conforme Jenkins 2009 apud Camargo, Estevanim e Silveira 2017. O conceito de cultura da convergência proposto por Jenkins interrelaciona a convergência dos meios de comunicação a outra duas questões: a cultura participativa, do qual discutimos aqui, e a inteligência coletiva. O autor entende que esses processos estão modificando as relações de poder proporcionadas pelo domínio da informação.

A cultura da participação e da convergência de mídia são a base da atuação dos influenciadores, e proporcionam a existência da cultura da comunicação de nicho (moda, saúde, games, beleza etc) e a criação de estratégias de conteúdo, fazendo a informação relevante e compartilhável, reforçando o engajamento da audiência.

 

Se tornar visível para o outro nas plataformas digitais

 Os regimes de visibilidade conforme Campanella[4]  dizem respeito a pessoas que buscam reconhecimento e visibilidade na sociedade contemporânea, mas estão sujeitas às questões que acontecem na exposição e estão intrincadas com o digital e com a plataformização.  “...argumenta-se aqui que o desejo de ser reconhecido e valorizado como um sujeito digno, por meio e práticas em mídias sociais, está intrinsicamente ligado ao desenvolvimento de regimes específicos de emoção, afeto e autorregulação” Campanella, 2023. Os profissionais liberais estão sujeitos em redes digitais, assim como os influenciadores digitais, à dinâmica dos regimes de visibilidade.

  É importante observar como os regimes de visibilidade percorreram o tempo. Campanella traça uma relação entre o sujeito moderno e o pós-moderno para identificar as mudanças que aconteceram entre os regimes de visibilidade que surgiram na modernidade e os que imperam hoje na era digital. Segundo o autor, com o advento das redes sociais o que está em jogo e o que regula esses regimes mudou obedecendo às dinâmicas do neoliberalismo. Campanella aponta o início da regulação social por regimes de visibilidade na obra o “Processo Civilizador” de Norbert Elias, nela o Elias analisa o livro “De Civilitate morum puerilium” de Erasmo Roterdã, como uma espécie de manual de como se comportar e exprimir emoções publicamente para jovens. Campanella observa que esse tipo de manual e regras instituíram como é o ser visto em sociedade. Ele faz um paralelo entre o tratado de Roterdã e um curso voltado para aspirantes à influencer ministrado pelo influencer digital Winderson Nunes. Nesse curso, Nunes ensina basicamente três lições: como fazer vídeos de alta qualidade, como lidar com algoritmos e como se representar em mídias sociais. Campanella ressalta que nas duas últimas lições reside a modificação dos regimes de visibilidade contemporâneos, pois são guias de conduta de como se comportar dentro de uma dinâmica datificada.

“Do mesmo modo como o tratado de Roterdã, os conselhos de Nunes estão direcionados aos modos de comportamento e a regulação das emoções, ambos fornecendo orientações sobre como ser percebido de maneira favorável pelos outros. No entanto, o foco o programa de Nunes não é a promoção de uma ideia de civilização, mas sim o potencial de ser reconhecido como um sujeito digno de atenção. A capacidade de gerar visibilidade nas mídias toma o lugar da civilidade como preocupação central relacionada à forma como alguém é percebido pelos outros......O enfoque reside em destacar a preocupação do youtuber em ensinar práticas midiáticas que se adaptam de forma mais eficaz às exigências das plataformas.” (Campanella, 2023)

É importante observar que entre a modernidade e a pós-modernidade existem regimes de vida, motivações e projetos de mundo diferentes que baseiam os regimes de visibilidade vigentes.    Como afirma Sibilia[5], ingredientes como a ânsia de compartilhamento hoje triunfante, já estavam presentes no século XIX. Ela exemplifica como as pinturas de metrópoles europeias fervilhantes, já eram destinadas à encenação cotidiana do espetáculo da vida moderna, aí já operava algum tipo de espetacularização da própria personalidade. Mas a autora ressalta que apesar de existirem raízes, são regimes de visibilidade bem diferentes, pois relacionam-se com outros regimes de vida, e projetos de mundo distantes.  

Mas como fica o sujeito que vive sob o regime de visibilidade plataformizado? Na modernidade, o que era guardado na intimidade e o que era exibido em público obedeciam a regras delimitadas por obras como as de Roterdã e eram definidos e claros.  Segundo Bruno[6], se os dispositivos de visibilidade e controle de si se fazem na exposição pública. “Tomando de empréstimo o termo proposto por Lacan, Tisseron (2001) designa por “extimidade” o desejo de o indivíduo comunicar ou expor o seu mundo interior ao outro” (BRUNO). 

 

 

Campanella[7] ressalta que, em virtude dessa exposição, as plataformas estabelecem novos regimes de visibilidade e modelam os processos de sociabilidade.  Hoje é preciso estar nessas plataformas, dentro dos feeds das redes sociais para que as pessoas possam “existir” e assim ter o reconhecimento do outro. “Os regimes de visibilidade contemporâneos estimulam o compartilhamento da pessoalidade na rede. A nossa intimidade é cada vez mais externa, e lidamos com uma extimidade que precisa ser divulgada e compartilhada nas redes sociais digitais” Karhawi[8].

A expressão “extimidade” também abordada por Sibilia[9], nos desvela dinâmicas que, de certa forma, são imperativas na vida pós-moderna e ao mesmo tempo trazem opressão. São tiranias que se apoderam do que era mais íntimo e inatingível nas pessoas. Além disso, “também é preciso mostrar tudo isso com habilidade narrativa e perícia estética lançando mão da “competência midiática” que cada um soube acumular e capitalizar, assim emergem as “tiranias da visibilidade”.  Sibilia.

 

Somos autênticos na tentativa de representação de si, nas redes sociais?

Uma das questões ligadas à visibilidade e que hoje regula o valor do sujeito que deseja ser visível é a questão da autenticidade. Segundo Campanella[10], “a demanda de ser autêntico consigo mesmo e, simultaneamente, aderir a certos modos de conduta para, com isso, ser valorizado, representa um dilema permanente na cultura midiática contemporânea”.  O autor observa que há hoje uma contradição na autenticidade. Ao observar o curso de Nunes, conforme explanado anteriormente, que ensina como ter uma autorrepresentação autêntica, ele questiona se essa autenticidade é expressa de maneira espontânea ou é calculada com o uma encenação para obter poder e mobilidade social.   Esse poder só pode ser exercido perante o olhar do outro. Segundo Bruno[11], “a autenticidade não mais se esconde por trás de signos a interpretar, mas se constitui no ato mesmo de se fazer ver pelo outro”

A autenticidade dos influenciadores, segundo Borges[12], representa um trabalho que envolve práticas afetivas, a construção de percepções e de relações do influenciador com sua audiência. O autor entende que se trata de um trabalho atravessado por uma outra necessidade que articula o fazer de si uma marca. “O empreendedorismo enquanto dimensão ideológica captura e estrutura a subjetividade desses trabalhadores”. (BORGES, 2025). 

Outra questão que se relaciona ao regime de visibilidade dos nossos tempos é o conceito de autorrepresentação descrito por Campanella[13], nele o autor compara autorrepresentação e representação. O último denota que uma pessoa ou grupo de pessoas representará outro conjunto de pessoas. A mídia é essencial para as lutas contemporâneas por reconhecimento, especialmente quando se trata de disputas em torno da representação midiática positiva de grupos minoritários. Mas o autor segue mostrando a face da autorrepresentação que enfatiza a experiência vivida do eu individual, no qual o sujeito fala somente de si e somente para si.  O autor afirma que quando indivíduos se auto representam seguem regras que nem eles mesmos conhecem e acabam misturando esfera pública e privada, marcadas por aspirações mercantilizadas e também pelo desejo de autorrealização. Com isso o indivíduo centra-se em si mesmo e em seus selfs ideais. 

“Em outras palavras, a autorrepresentação não é apenas uma característica central do uso das mídias sociais, mas os aspectos culturais e textuais dessas plataformas estão arraigados em sua mediação institucional... é impossível dissociar a autorrepresentação de práticas de sociabilidade nessas plataformas.” (Campanella,  2023)

O autor finalmente observa que é importante ressaltar que todas essas dinâmicas têm suas arquiteturas orientadas a dados que transformam o social em informação voltada para a geração de mais informação e lucro. Por isso é importante fazer alguns apontamentos sobre plataformas e trabalho.

 

O trabalho de visibilidade e as plataformas

O mundo do trabalho, tanto como outras esferas da vida, passa pelas dinâmicas de plataforma. Todos os nossos atos laborais perpassam as plataformas digitais, seja usando ferramentas do nosso próprio trabalho ou quando pedimos um carro ou uma comida estamos lidando com relações de trabalho. O que nos cabe aqui é analisar como os profissionais liberais usam a comunicação em plataformas digitais como forma de promoção de seu trabalho, em especial as redes sociais. Esses profissionais também são sujeitos ao regime de visibilidade, obedecendo às dinâmicas de autenticidade e autorrepresentação, além de estarem sujeitos, segundo Campanella[14], ao “regime algorítmico de visibilidade” no qual se espera que os usuários finais produzam determinadas práticas midiáticas, embora não tenham acesso aos recursos infraestruturais da plataforma responsáveis pela leitura e metrificação das ações dos usuários.  Segundo o autor, esses dispositivos investem na criação de um habitus datificado.

Em sua definição de influenciadores digitais Borges[15] os coloca como “trabalhadores que desempenham um trabalho imaterial”. Ele analisa que essa produção é atravessada pela exploração pelas plataformas digitais, em que os objetivos se sobrepõem às subjetividades que estão obrigatoriamente interconectadas a sua atividade laboral-midiática do influenciador.  As imbricações entre mercadorização e empreendedorismo de si se revelam na sua dinâmica laboral. Observando os profissionais liberais, percebemos que o empreendedorismo, baseado na personificação de si enquanto marca, corresponde ao mesmo traço constituinte do trabalho dos influenciadores digitais. Segundo Borges:

“Essa característica conforma dimensões de objetificação do sujeito e de subjetivação das imagens em um processo dialógico que atua na inscrição desse trabalhador na lógica neoliberal, atribuindo-lhe um modus operandi empresarial que valoriza concorrência, competitividade e flexibilização em uma operação que se dá no limite da desintegração de si enquanto sujeito.” (Borges, 2025)

Borges classificou o trabalho de influenciadores digitais em categorias. Aqui observa-se a categoria que mais se enquadra na atividade do profissional liberal influencer. O visibility labor retrata bem a atividade de autopromoção exercida por esses profissionais, pois, segundo autor, se   trata do trabalho de comunicação feito para que eles se auto posicionem e façam uma curadoria das apresentações de si para serem perceptíveis positivamente entre possíveis clientes, imprensa, seguidores ou fãs... “Ou seja, é o trabalho que sujeitos ordinários realizam a fim de serem notados”. (Abidin, 2016 apud Borges 2025)

 

Profissionais liberais passam a habitar as nas redes sociais

Existe uma anedota, na qual conta-se que ao descobrir que uma pessoa não tem rede social, ela logo é considerada estranha ou teria algo a esconder. No mundo dos profissionais liberais, essa brincadeira ressoa de certa forma. Poucos profissionais optam por não ter presença digital, mas a maioria tem uma rede para divulgar seu trabalho. As motivações podem ser plurais como conquistar clientes e prestígio, mas todos entram nas dinâmicas observadas, como os regimes de visibilidade, a questão da autenticidade, da autoridade e da plataformização. Psicólogos, como no nosso objeto de estudo, médicos, advogados, nutricionistas estão performando nas redes sociais. No início dos anos 2010, a “abertura digital” ocorreu quando empresas, percebendo a importância dos meios digitais e identificando a cultura da convergência, começaram a diversificar a comunicação antes restritas a meios de tradicionais, como sites, SAC e publicidade, para aderir às redes sociais.  Um breve levantamento foi elaborado, por meio de pesquisa nas redes sociais Instagram e Youtube com psicólogos amplamente conhecidos por suas atuações em redes sociais e foi constatado um movimento que indica a entrada desses profissionais nas redes logo após ao fenômeno da entrada das empresas.




Tabela 1 – Levantamento realizado em redes sociais de psicólogos brasileiros em 07/01/2026.


  Segundo Karhawi[16], em seus perfis nas redes sociais, há desde o compartilhamento da vida pessoal nos stories até vídeos mais profissionais (com dicas de saúde ou a publicização de projetos de clientes e diversos formatos de vídeos. “Esse fenômeno tem relação direta com a prática dos influenciadores digitais, já que os profissionais das mais diversas áreas – de publicitários a educadores físicos – replicam formatos, temáticas e estéticas dos influenciadores digitais.” Muitas coisas são levadas em consideração para um perfil em rede social profissional.  Algumas questões estéticas se tornam imperativas para fazer funcionar uma espécie de venda imagética, são geralmente modelos copiados de outros influencers bem-sucedidos.  Conforme Kahrawi “...os influenciadores digitais são símbolo do “bom uso” das plataformas, o que justificaria seu sucesso em termos financeiros e até mesmo célebres” e os profissionais que atuam nas redes sociais fazem um movimento de captação e reprodução da estética como simbolização de uma mercadoria confiável. Segundo Sibilia e Siminelly[17], apesar de profissionais liberais não trabalharem como influencers tradicionais, eles obedecem às dinâmicas da “plataformização”. “Estas, por sua vez, correspondem a características das subjetividades contemporâneas e aos modos de viver estimulados pelo atual regime histórico, no qual prevalecem valores associados ao neoliberalismo”.

As habilidades restritas aos influenciadores como branding pessoal constante; otimização pessoal para as plataformas (organização do próprio conteúdo para que seja reconhecido por sistemas algorítmicos) e mercantilização de autenticidade (por meio de conteúdo e temáticas relacionáveis e reais) passam a ser competências profissionais desempenhadas por trabalhadores “tradicionais”, de autônomos a liberais.... Portanto, há um encontro de dimensões que colocam profissionais de diversas áreas em conformidade com as práticas dos influenciadores: o imperativo da visibilidade, a cultura da inspiração e a plataformização. (Kahrawi, 2024)

Essas plataformas “transformaram-se em ferramentas comerciais, que estimulam a divulgação de todo tipo de negócios e operam com uma lógica algorítmica tendente a “enganchar”, Bentes, 2021 apud Sibilia e Simonely, 2025[18] os potenciais consumidores de publicidade direcionada.” As autoras fazem uma análise entre esse fenômeno e o que já analisava Foucault no livro Nascimento da biopolítica, de 1979. Na obra, o autor defende a ideia de o trabalhador estava deixando de ser valorizado pela sua força de trabalho, mas pelo capital-competência. “O trabalhador tornou-se o “empresário de si mesmo, sendo ele próprio seu capital, sendo para si mesmo seu produtor, sendo para si mesmo a fonte de [sua] renda” (Foucault, 2008, p. 310 apud Sibilia e Simonely, 2025). Com essa análise foucaultiana, as autoras constatam que esse modelo acontece em quase todas as áreas e os profissionais liberais da atualidade. São também empreendedores, pois precisam divulgar seus serviços para concorrer no disputado mercado. Para conquistar seguidores e obter clientes, portanto, agem como “empresários de si” enquanto “espetacularizam” suas vidas e suas profissões.

Estar presente nas redes sociais sob a dinâmica da plataformização faz com que esses profissionais se coloquem como celebridades. Alguns passam a ser vistos como midiáticos ou “estrelas”. Essa questão é descrita por Abidin[19] que observa que é tudo gestão de impressão em espaços digitais. “Modulamos a maneira como nos apresentamos, com base em um público imaginado, com o objetivo de garantir que essas pessoas recebam uma fatia positiva de nossa personalidade.”  A autora coloca essas práticas provenientes de celebridades como práticas de influenciadores digitas. Práticas essas adotadas pelos profissionais liberais na maneira como se apresentam nas redes sociais. “Hoje, todo mundo tem potencial para ser um influenciador, todo mundo está se engajando em algum tipo de prática de celebridade na internet”. 

Mas o que Abidin[20] observa para os influenciadores digitais, no que se refere à sucesso e confiabilidade, se encaixa também no que acontece com os profissionais liberais influencers. A confiança construída pelo contato com pequenas comunidades pode ser mais efetiva.  Segundo a autora há outros valores nessa atividade, como a capacidade de pautar algumas conversas e influenciar a opinião das pessoas. “Muitos influenciadores minoritários têm sucesso apenas dentro de um grupo social e cultural específico e podem ter grande valor e poder de persuasão”. Isso evidencia que estar numa rede social bem-posicionado, cumprindo as dinâmicas observadas aqui como regime de visibilidade, autenticidade, autorrepresentação torna-se uma prática atrativa e com promessa de grandes vantagens comerciais e de imagem.

 

Psicóloga vai as redes para alertar sobre sinais de violência contra mulher

Para se ambientar na área de atuação de nosso objeto de estudo, os posts de Instagram da psicóloga Daniele Monteiro, descrevo aqui alguns dados que nos fazem vislumbrar melhor esse território.  Daniele Monteiro se dirige diretamente a mulheres falando sobre a violência contra mulher, mais especificamente sobre abusos, violências psicológica e patrimonial.

A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher[21] feita pela Agência Senado mostra que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar em 2025. Mesmo com amplo conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, apenas 19% afirmam conhecer bem a legislação, embora a maioria avalie que ela protege as mulheres.  Para compreender a especificidade da temática abordada por Daniela Moteiro abordarei aqui um trecho da Lei Maria da Penha[22] de 2006. A Lei tipifica outros tipos de violência, além das questões corporais tradicionalmente consideradas como violência. As diferentes formas de violência ficaram classificadas como: 

·  violência física, qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;

·  violência psicológica, qualquer conduta que cause danos emocionais e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

·  violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;

· violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades.  (Lei Maria da Penha, 2006).

A psicóloga atua e divulga em suas redes, principalmente, maneiras de identificar e prevenir a violência psicológica e a violência patrimonial. A pesquisa do Senado também mostra uma mudança na percepção dessas agressões. Até 2021, a maioria dos casos declarados era de violência física. Contudo, a violência psicológica passou a ser a mais relatada e percebida. No resultado mais recente da pesquisa da Agência Senado[23]  88% das mulheres relataram ter vivido violência psicológica em algum momento da vida.

No Fórum Brasileiro de Segurança Pública[24] 2025, também se notou essa mudança de percepção:

 “De um lado, os registros dessa modalidade criminal tendem mesmo a crescer, à medida em que ocorre um processo de aprendizado institucional e social por parte das polícias, dos operadores do direito e das vítimas - estas últimas, que entendem da possibilidade e importância de denúncias essas violências e, os primeiros, que incluem esses novos tipos penais entre seu repertório classificatório.” Matosinhos e Lagreca, 2025.

Mesmo assim as autoras se surpreendem com números elevados em crimes tipificados tão recentemente, evidenciando que essas violências, apesar de sutis ou menos perceptíveis que a violência física, são amplamente vivenciadas por mulheres em sua vida cotidiana e geralmente são um indício para modalidades mais letais de violência contra mulher. “A prevalência de violência psicológica indica uma percepção da subjetividade da violência, e uma compreensão de que este crime deve ser denunciado...”. Percebemos aqui que a psicóloga levanta uma temática que está tomando cada vez mais relevância e despertando a atenção das mulheres.

Olhando para o mercado de influência brasileiro constata-se que a maioria dos influencers digitais[25] brasileiros são mulheres e se localizam na região sudeste, elas representam 74,9%, enquanto homens representam apenas 22,9% da base.  Geograficamente 59,2% se localiza na região Sudeste, 22,5% no Nordeste, 9,2% Sul, 5,7% Centro oeste e 2,9%na região Norte. O Brasil segundo país do mundo com mais posts patrocinados e o primeiro em número absoluto de influenciadores ativos no Instagram, representando 15,8% da base mundial. [26]

É nesse ambiente que a comunicação digital da psicóloga Daniele Monteiro circula. Um mercado que tem recebido grandes aportes, cerca de 3 milhões de dólares mundialmente em 2025[27], em que os influenciadores se promovem por motivações comerciais sejam elas com o objetivo de vender produtos e marcas para ganhos financeiros ou para se colocar como um produto e se tornar desejável para consumo.

 


Daniele Rodrigues Cavaliere – psicóloga - @md.danimonteiro



Análise - a construção da persona MD.Monteiro e sua subjetividade profissional

O perfil do Instagram de um profissional liberal hoje é uma mistura de portfólio profissional, com posts sobre assuntos que se referem a sua atividade e um diário íntimo, com posts sobre a vida pessoal. A subjetividade profissional também passa a ser modulada pelos dispositivos que as atravessam, no caso observado, as mídias sociais. Quando indivíduos se auto representam seguem regras opacas e acabam misturando esfera pública e privada, marcadas por aspirações mercantilizadas e também pelo desejo de autorrealização. Vemos aqui a construção da persona da psicóloga dentro de seu perfil no Instagram que obedece exatamente a esse mecanismo.

 


Figura 1 – post fixado no perfil da psicóloga Daniele Monteiro

 

 No perfil do Instagram da psicóloga, há um post fixado[28]. Trata-se de uma sequência de imagens chamada carrossel e a apresenta por meio de várias informações e atributos. Ao observar o que ela expressa de si mesma, percebe-se que há um híbrido de fatos pessoais e profissionais: mãe de dois filhos x perita de tribunal, saiu de um relacionamento abusivo x psicóloga. Essa barreira pouco delimitada entre o público e o privado obedece às dinâmicas dos regimes de visibilidade. Segundo Campanella (2023), o desejo de ser reconhecido e valorizado como um sujeito digno, por meio e práticas em mídias sociais, está intrinsicamente ligado ao desenvolvimento de regimes específicos de emoção, afeto. Esse post demonstra como profissionais como Daniele Monteiro aderem a esse regime.  A “extimidade” se materializa quando ela mostra fatos que antes não eram divulgados em regimes de visibilidade anteriores. É importante destacar o trecho em que Daniele deixa bem claro seus valores morais delimitando ainda mais sua persona, uma profissional cujas definições vão além de atributos como competência, formação e experiência, se estendendo para qualidades pessoais como ter amor-próprio, gostar de jogar futevôlei ou ficar com a família. O que denota o acionamento de afetos.













Figura 2 - Três stories postados nos primeiros dias de 2026


 O regime de visibilidade continua aparente nos três stories, conforme figura 2, que tratam de estilo de vida. Em um deles, a psicóloga Daniele Monteiro fala que optar por uma alimentação saudável é uma forma de exercer amor-próprio, exibindo um copo com um suco. Nos outros dois, ela segue exaltando a vida esportiva exibindo seus treinos de futevôlei. Mas neste momento, nota-se que a exposição vai além de palavras auto descritivas e vai para imagens da vida cotidiana.  Percebe-se nesses stories uma linguagem visual com cuidado estético característico dos influencers digitais. O conteúdo é aspiracional e se revela num esforço típico da prática da autenticidade.  É preciso parecer verdadeiro ao olhar do outro, carregando atributos que são valorizados e se tornam moedas imagéticas.

Aqui autopromoção se evidência denotando a classificação visibility labor de Borges (2025) pois, segundo autor, se trata do trabalho de comunicação feito pelos sujeitos para que eles se auto posicionem e façam uma curadoria das apresentações de si para serem perceptíveis positivamente entre possíveis clientes, imprensa, seguidores ou fãs.  A psicóloga se apresenta como uma pessoa saudável e bem-sucedida, logo confiável para ser segui as e consumida posteriormente em forma de produtos.  E, para além da visibilidade, o que se apresenta aqui é i imperativo de autenticidade. Apesar de haver um cálculo na dosagem da imagem, tudo tem que parecer cotidiano, trivial.  (Autenticidade)


Figura 3 – Foto de infância postada no Dia das Crianças


 Numa foto de infância postada pela psicóloga Daniele Monteiro ((figura 3) no dia 12 de outubro de 2025, Dia das Crianças, percebe-se o conceito de “extimidade” quando ela expõe uma foto longínqua de sua infância, com seus primos, num momento privado de brincadeiras, mas também busca pela autenticidade. Uma imagem assim evoca a quem viveu nesses tempos uma identificação imediata. Também há autorrepresentação, pois, com a foto, ela se posiciona como uma mulher, que teve uma infância feliz, “marcada por aventuras e joelhos ralados”.



Figura 4 – Post fixado no Instagram


A figura 4 é o primeiro post fixado no perfil da psicóloga Daniele Monteiro, postado em 27 de agosto de 2025. Observamos aqui a lógica do neoliberalismo operando. O termo “agenda fechada” é um claro gatilho de escassez[29], um estímulo usado forma estratégica para vender mais. O objetivo é produzir o sentimento de medo e falta. Essa falta está relacionada ao tempo, quantidade ou preço. É comum os consumidores comprarem quando recebem esse gatilho, pois o produto passa a ser visto como exclusivo e necessário. Toda essa dinâmica comercial e neoliberal é aplicada na plataformização. Um profissional liberal não trabalha exatamente como um influencer, mas estão sujeitos às dinâmicas das plataformas. Segundo Sibilia e Siminelly (2025), as plataformas correspondem a características das subjetividades contemporâneas e aos modos de viver estimulados pelo atual regime histórico, no qual prevalecem valores associados ao neoliberalismo. Com a agenda fechada a profissional se valoriza, transmitindo a imagem de muito solicitada, aumentando a impressão de alta demanda, valorizando seu serviço dentro da plataforma, para assim seguir os próximos passos.


Figura 5 – post de 19/09/2026


Após se situar dentro da dinâmica da plataformização, passando pelo regime de visibilidade, a “extimidade”, autenticidade, encontramos a Figura 5 – Post de 19 de setembro, no qual a psicóloga Daniele divulga o curso que ministrou em de outubro de 2025, intitulado “Para Pra Pensar”. Ela diz que recebe uma demanda constante de mulheres pedindo ajuda, resolve atender não somente uma por vez, mas ajudar várias mulheres a reconhecerem um relacionamento abusivo e se curar mesmo sem sair de uma relação. Nota-se no discurso da profissional que sua “extimidade” se conecta com a “extimidade” de suas seguidoras. Ela própria se declara vítima de um relacionamento abusivo, como veremos adiante, e ela afirma que suas seguidoras expõem suas questões a ela em atos confessionais. Isso estabelece uma relação de confiança. Abidin(2021) observa que o sucesso e confiabilidade de influenciadores digitais se deve a uma construção baseada em confiança. Assim também é com os liberais influencers, passando por todas as etapas que um influencer costuma cumprir, um profissional liberal pode se beneficiar de vantagens comerciais, como por exemplo vender massivamente um curso.

 

 

Figura 6 - O link da bio do perfil do Instagram da psicóloga é www.paraprapensar.com.br .

 

É o que se observa na figura 6, dando continuidade às dinâmicas observadas nas figuras 4 e 5, observa-se uma sequência lógica.  No post da figura 4, com gatilho de escassez, ela informa que está com a agenda lotada sem horários para atender nenhuma cliente individualmente. No post da figura 5, a profissional divulga um curso afirmando que foi motivada pelo apelo das mulheres que constantemente a enviam mensagens contado seus dramas. E por isso, ela faz o curso” Para Pra Pensar” e cria um método para ajudar várias mulheres. Na figura 6, há detalhes do site onde o curso é vendido. O que se observa até aqui é a dinâmica que envolve o percurso de um profissional liberal nas redes sociais. Percebe-se que a necessidade de visibilidade o impulsiona a entrar nas redes. Ele então delineia uma temática, cria uma estética, desenvolve uma personalidade conforme o que as redes demandam. Começa, portanto, a fazer conteúdo com uma variação de pautas informativas e exposição da vida privada. Profere opiniões para aproveitando assuntos virais. Assim, conquista seguidores, gera confiança e se torna inspiração. Todo esse movimento promove sua imagem, gerando assim a possiblidade de ganhos expressos como aumento de valor de consulta, venda de cursos e palestras. Esse processo não é novidade em comunicação, sempre existiu propaganda para estimular vendas. O que ocorre na pós-modernidade é que esse processo se pulverizou, tornando-se autônomo e muitas vezes pode fugir do controle ético.

 


Figura 7.  Transcrição do vídeo

“Você se sentia segura não é mesmo? Afinal, ele nunca levantou a mão, nunca gritou com você, nunca te xingou, mas ele controlava todo o dinheiro da família. Mas quando talvez você tenha percebido é que quando ele tomou o controle da conta, ele tirou algo muito maior de você, todo o teu sentimento de segurança. É como morar numa casa sem trancas. Você dorme, mas sabe que a qualquer momento alguém pode abrir a porta e levar tudo, inclusive a sua paz. A cada palavra dita ou a cada frase me dá o cartão, deixa que eu pago, você não precisa trabalhar, você tem tudo dentro de casa. Um pedacinho da sua autoestima, da sua autonomia, vai indo embora e você vai vendo ela(sic) saindo pela porta. E um dia você percebeu que já não sabia mais decidir o que comer, aonde ir e nem mais quem era você. A violência patrimonial, ela não só destrói o seu dinheiro, mas ela corrói a sua autoestima, gera medo, ansiedade, te coloca num lugar de estado, de vigilância constante. É uma prisão sem grades, sem muros e muitas mulheres vivem isso sem saber o que está acontecendo com elas. Quando ele diz "o dinheiro é nosso, mas tudo fica no nome dele", quando você pede para ir trabalhar, ele responde "meu amor, você não precisa, te falta alguma coisa?". Quando você tem que justificar cada compra, cada passo, cada escolha, isso não é cuidado, isso é controle. E sabe o que é mais assustador? Todos os estudos mostram o quanto a violência patrimonial pode causar sintomas de TEPT[30] e a maior parte das pessoas finge que isso não acontece. Se você precisa pedir permissão para usar o seu próprio dinheiro, isso é controle. Compartilhe esse vídeo com todas as mulheres que você conhece, porque nós precisamos despertar uma a uma para essa violência.”

 

No vídeo da figura 7, a psicóloga Daniele Monteiro aborda o tema da violência patrimonial, uma de suas temáticas.  Esse é um modelo que predomina em seus vídeos no Instagram. Com estética e oratória características sempre há um ambiente e intimidade.  Ela se dirige diretamente à seguidora com questionamentos enfáticos mesclados com a técnica de storytelling[31]. Esse é um momento crucial para ganhar a confiança das seguidoras. É quando ela se mostra disponível, fala das dores de muitas mulheres, o que gera identificação, criando assim a conexão.  Ela descreve muitas características da violência patrimonial e ao citar o transtorno de estresse pós-traumático como uma das consequências dessa violência ela transmite a confiança de uma “expert”. Mas, no final pede para que as seguidoras compartilhem com as amigas, desvelando o caráter de plataformização que envolve todo esse trabalho de comunicação.

 

Figura 8 – foto de viagem com confissão íntima


O post da figura 8 apresenta uma extimidade calculada. A psicóloga Daniele Monteiro se expõe ao declarar que sofreu um relacionamento abusivo em seu passado, mas não revela detalhes. O enfoque fica para a mensagem com caráter de autoajuda, na qual ela afirma ter superado a questão e que hoje sua vida e atitudes estão bem melhores por conta dessa mudança.   É uma ação para figurar sua autenticidade, um campo onde ela se representa. Mas como já verificamos na presente discussão teórica, não temos controle sobre a veracidade dos fatos e nem sabemos o quanto é desvelado integralmente por quem está nas redes com o objetivo de estabelecer intimidade com seus seguidores. Ao final do texto, ela pergunta “E você, o que mudou ou gostaria de mudar”, uma tentativa de conexão por meio da identificação, de experiencias em comum, mas também uma tentativa, conforme as dinâmicas plataformização, de ter mais engajamento. Enfim, existe ainda um campo nebuloso quando analisamos a ação dos profissionais liberais nas redes sociais. Há de haver olhos abertos para discernir conteúdos comerciais dos com roupagem informativa, conselhos amigos de interesses materiais.

 

Conclusão 

Com esse artigo pode-se constatar que o fenômeno da entrada dos profissionais liberais nas redes sociais, que ocorreu nos anos 2010, está baseado na cultura da participação, pois todos os movimentos derivados da chegada da internet e da vida em rede, como os diários pessoais digitais, conhecidos como bloggs, até a chegada das redes sociais, abriram caminho para a participação desses profissionais. Vários meios de comunicação surgiram devido a demanda da cultura da participação e eles fizeram a convergência da necessidade das pessoas de participarem e estarem conectadas de novas maneiras.  Com esses novos veículos, e com a mudança dos regimes de visibilidade na pós-modernidade, os profissionais liberais foram impulsionados por uma lógica neoliberal a entrar nessas redes para divulgar seu trabalho e ganhar dinheiro.  Ao debruçar-se sobre os posts do perfil do Instagram de Daniele Monteiro foi possível delinear esse percurso. Após essa observação, novas indagações surgiram. Afinal o que é ser um psicólogo hoje? Como é trabalhar dentro de uma suposta nova ética de dar conselhos genéricos online e vender cursos que parecem ter soluções fáceis para casos que geralmente são tratados individualmente por logos anos? Há também o desafio de analisar mais detalhadamente a linguagem desse tipo de profissional, os artifícios usados na comunicação deles para gerar proximidade confiança e consequentemente consumo. Outra questão interessante seria fazer uma sondagem nos comentários das seguidoras para saber como os posts ressoam na audiência.  Para isso seria preciso analisar mais perfis para ter parâmetros de comparação e detectar os modus operandi em comum.

 

Referências Bibliográficas

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[1] KARHAWI, Issaaf. De blogueira a influenciadora: etapas de profissionalização da blogosfera de moda brasileira. Porto Alegre: Sulina, 2020. (Cap. 2) 

[2] CAMARGO, Isadora. ESTEVANIM, Mayanna. SILVEIRA, Stefanie Carlan da. Cultura participativa e convergente: o cenário que favorece o nascimento dos influenciadores digitais. Communicare, São Paulo, v. 17, p. 104, set. 2017

[3] KARHAWI, Issaaf. De blogueira a influenciadora: etapas de profissionalização da blogosfera de moda brasileira. Porto Alegre: Sulina, 2020. (Cap. 2)

[4] CAMPANELLA, Bruno. Regimes de visibilidade na era das mídias sociais: transformações e continuidades. Galáxia, v. 48, n. 1, p. 2 , 2023.

[5] SIBILIA, P. O Show do Eu – A intimidade como espetáculo – Ed. Contraponto – Ed. rev. 2016. P. 345

[6] BRUNO, Fernanda. Ver e ser visto: subjetividade, estética e atenção. In.: BRUNO, Fernanda. Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2013. (Capítulo II - pp. 68)

[7] CAMPANELLA, Bruno. Regimes de visibilidade na era das mídias sociais: transformações e continuidades. Galáxia, v. 48, n. 1, p. 2, 2023.

[8]   KARHAWI, Issaaf INFLUENCERS, CREATORS E POSTS: PROPOSIÇÃO DE CATEGORIAS DOS CONTEÚDOS PUBLICADOS POR INFLUENCIADORES DIGITAIS - REVISTA DO CENTRO DE PESQUISA E FORMAÇÃO / Nº 17, dezembro 2023.

[9] SIBILIA, P. O Show do Eu – A intimidade como espetáculo – Ed. Contraponto – Ed. rev. 2016.p. 126 e 127.

[10] CAMPANELLA, Bruno. Regimes de visibilidade na era das mídias sociais: transformações e continuidades. Galáxia, v. 48, n. 1, p. 7, 2023.

[11] . BRUNO, Fernanda. Ver e ser visto: subjetividade, estética e atenção in BRUNO, Fernanda. Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2013. (Capítulo II - pp. 69)

[12] BORGES, Caio Afonso. Influenciadores digitais e trabalho: categorias de análise. Estudos de Sociologia, v. 1, n. 31, 2025 p. 23.

[13] CAMPANELLA, Bruno. Regimes de visibilidade na era das mídias sociais: transformações e continuidades. Galáxia, v. 48, n. 1, p.12, 2023.

 

[14] CAMPANELLA, Bruno. Regimes de visibilidade na era das mídias sociais: transformações e continuidades. Galáxia, v. 48, n. 1, p.16 , 2023

[15] BORGES, Caio Afonso. Influenciadores digitais e trabalho: categorias de análise. Estudos de Sociologia, v. 1, n. 31, 2025 p. 19,26.

[16] KARHAWI, Issaaf. “TÁ TODA BLOGUEIRINHA!”: A APROPRIAÇÃO DAS PRÁTICAS DOS INFLUENCIADORES DIGITAIS NA CONSTRUÇÃO DE VISIBILIDADE MIDIÁTICA POR PROFISSIONAIS LIBERAIS, in OLHARES HÍBRIDOS SOBRE A COMUNICAÇÃO CONTEMPORÂNEA Org. SAAD, Beth

[17] SIBILIA, P., SIMONELLY, G. DOUTOR OU INFLUENCER? A AUTOPROMOÇÃO DE PROFISSIONAIS DA MEDICINA BRASILEIROS EM REDES SOCIAIS DA INTERNET in Comunicologia, Revista da Comunicação da Universidade Católica de Brasília, v. 17/2024 - 2025.p. 5.

[18] Idem 19

[19] ABIDIN, C Influenciadores digitais, celebridades da internet e “blogueirinhas”: uma entrevista com Crystal Abidin, por Issaaf Karhawi, Intercom – RBCC São Paulo, v. 44, n. 1, p.297, jan./abr. 2021

[20]  ABIDIN, C Influenciadores digitais, celebridades da internet e “blogueirinhas”: uma entrevista com Crystal Abidin, por Issaaf Karhawi, Intercom – RBCC São Paulo, v. 44, n. 1, jan./abr. 2021 p. 298.

[22]  LEI MARIA DA PENHA - Art 70  -  BRASIL, Lei 11.340 de 7 de agosto de 2006 https://www.institutomariadapenha.org.br/assets/downloads/lei-11340-2006-lei-maria-da-penha.pdf Acesso em: 09/01/2026, 00:48.

[24] MATOSINHOS I. E LAGRECA A. , FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/handle/123456789/279 Acesso em: 07/01/2025 01:29

 

[25] Youpix – Pesquisa Creators&Negócios. Disponível em: https://members.youpix.com.br/pesquisa-creators-negocios-2025. Acessado em 07/01/2025 12:05.

[26] Youpix - Influencer Marketing Hub, 2025. O mercado de influência no Brasil nunca esteve tão quente. Disponível em: https://youpix.com.br/o-mercado-de-influencia-no-brasil-nunca-esteve-tao-quente/ Acessado em 07/01/2026 13:22.

 [27]Statista - Influencer marketing market size worldwide – Disponível em:  https://www.statista.com/statistics/1092819/global-influencer-market-size/ Acesso em: 09/01/2026 22:09.

 

 

[28] O Instagram permite que cada perfil tenha a possibilidade de deixar posts fixos, ou seja, que não rolem na timeline ficando assim, visíveis constantemente para quem acessar o perfil.

[29] SERASA EXPIRIAN - O que é gatilho da escassez? Entenda como aplicá-lo e aumentar suas vendas. Disponível em:  https://www.serasaexperian.com.br/conteudos/o-que-e-gatilho-da-escassez-entenda-como-aplica-lo-e-aumentar-suas-vendas/   Acesso em : 10/01/2026 01:48.

[30] Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

[31] O Storytelling é o ato de contar histórias por meio de enredo elaborado e de narrativa envolvente, utilizando palavras e recursos audiovisuais. A técnica ajuda a promover uma marca, vender serviços de forma indireta, com caráter persuasivo. EDUCA+BRASIL, Disponível em: https://www.educamaisbrasil.com.br/cursos-e-faculdades/marketing/noticias/storytelling-o-que-e-e-como-contar-historias-memoraveis Acesso em:  10/01/2026 14:17.

 
 
 

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